21 set Vida Moderna e Saúde da Mulher

Entrevista com Dr. Luiz Flávio Cordeiro Fernandes (CRM 112085), ginecologista e obstetra.

1) A partir de qual idade a mulher passa a ter uma gravidez considerada tardia?  Quais os principais riscos para a mulher e para o bebê? 

Atualmente, considera-se a gestante acima de 35 anos como “idosa”. Isto é baseado na maior chance de má formação fetal e nos riscos aumentados de doença hipertensiva específica da gestação e diabetes gestacional. Entretanto, analisando o comportamento das mulheres nos dias atuais – cada vez mais inseridas no mercado de trabalho –, a maternidade vem sendo adiada para esta faixa etária, e o recado que deve ficar é: com um pré-natal bem realizado, estes riscos podem ser quantificados, amenizados e controlados, permitindo a estas gestantes uma gestação saudável.

2) Quais são os possíveis reflexos (ou perigos) para a saúde da mulher do uso contínuo, por muitos anos, de medicamentos anticoncepcionais? 

Os anticoncepcionais orais combinados carregam consigo um maior risco de trombose, principalmente nos dois primeiros anos de uso. O uso prolongado destas medicações pode elevar o risco de câncer de mama, porém, em contrapartida é protetor contra os cânceres de ovário e de endométrio. Eles também podem trazer benefícios no controle do ciclo menstrual e de sintomas associados a ele, como, por exemplo, tensão pré-menstrual (TPM) e cólicas menstruais. Podem ainda proporcionar benefícios dermatológicos no controle de acne e oleosidade cutânea.

3) Quais os principais riscos que a mulher está correndo ao não fazer os exames ginecológicos de rotina?

As consultas ginecológicas rotineiras permitem, inicialmente, a orientação a respeito de hábitos de vida, como comportamento, alimentação, exercícios físicos e planejamento familiar, possibilitando uma vida mais saudável e prevenindo agravos posteriores. No entanto, algumas outras doenças (como câncer de colo de útero e de mama), nem sempre possíveis de prevenir, podem ser diagnosticadas em uma forma inicial, permitindo tratamentos conservadores, menos mutiladores e elevando a expectativa de vida da população feminina. Devemos entender ainda que, na consulta ginecológica rotineira, outros aspectos também são avaliados e estudados, como a pressão arterial, a medida da circunferência abdominal, o índice de massa corpórea e o perfil metabólico da mulher, transformando o ginecologista no clínico da mulher – e assim ele deve se postar. Todo este cuidado conferiu às mulheres uma expectativa de vida superior à dos homens.

4) Quais as doenças ginecológicas que mais aumentaram a incidência nos últimos anos? É possível fazer uma analogia entre essas doenças e o estilo de vida moderno – hábitos, alimentação, sedentarismo, comportamento sexual, vida nas grandes cidades (com poluição, estresse, alimentação pouco saudável…)?

Nos últimos anos elevou-se a incidência de problemas metabólicos na mulher, tais como obesidade (virou epidemia mundial) e dislipidemia (nível elevado ou anormal de gordura no sangue), todos associados a hábitos de vida inapropriados, como alimentação inadequada e sedentarismo.

Além disso, com o adiamento da maternidade e a redução do número de filhos, associado ao aumento da poluição e à evolução da tecnologia diagnóstica, a endometriose apresentou um considerável aumento em sua incidência.

No tocante ao comportamento sexual, a maior liberdade neste quesito – principalmente quando não acompanhada de prevenção adequada – aumenta a incidência de doenças sexualmente transmissíveis, como infecções por Chlamydia tricomonas, HPV, entre outras, sendo que algumas delas podem trazer enorme prejuízo à fertilidade futura destas mulheres.

O aumento da expectativa de vida da população feminina fez com que a incidência de câncer também aumentasse. 

Na consulta ginecológica é possível fazer uma análise holística da vida da mulher, orientando e intervindo nos pontos necessários. Essa é a sua grande relevância.