21 set Infertilidade e Endometriose

A infertilidade é um problema de saúde pública que afeta 20% dos casais em idade reprodutiva. Aproximadamente 40% dos fatores de infertilidade são masculinos e outros 40% são femininos, existindo, ainda, aproximadamente 20% de associação entre ambos. Sabemos que a endometriose é uma afecção do sistema reprodutivo feminino que, além de causar dores, é um dos mais frequentes fatores causadores de infertilidade feminina

A endometriose é uma doença com diversas apresentações e pode ser classificada conforme sua localização emendometriose superficial peritoneal, endometriose ovariana (na qual cistos contendo focos de endometriose se desenvolvem no interior dos ovários) e endometriose profunda – esta última considerada a mais agressiva e de tratamento mais complexo.

A medicina reprodutiva apresentou grandes avanços nos últimos anos. Como exemplo de tais avanços, podemos citar as pesquisas e os resultados promissores no diagnóstico e no tratamento da endometriose profunda, como, por exemplo, a utilização do ultrassom transvaginal especializado. Esse ultrassom possibilita o diagnóstico deste tipo de doença antes da paciente ser submetida à laparoscopia.

No campo da reprodução assistida, o avanço da tecnologia nos trouxe algumas evoluções, como: melhoras nas taxas de gestação e a possibilidade de uma melhor seleção embrionária – o que indiretamente está diminuindo as chances de gestação múltipla, já que não precisamos mais transferir um número elevado de embriões.

A pesquisa (Deep pelvic endometriosis negatively affects ovarian reserve and the number of oocytes retrieved for in vitro fertilization.*), publicada nos últimos meses, buscou entender a associação entre endometriose profunda e a capacidade dos ovários responderem aos hormônios que utilizamos para estimular a ovulação em processos de fertilização in vitro.

O estudo conduzido por Enrico Papaleo, em Milão, no qual os autores tentaram responder a seguinte pergunta: as mulheres que têm endometriose profunda podem ter menor produção de óvulos se comparadas àquelas também portadoras de endometriose, mas sem a doença profunda? Para isso, os autores estudaram as portadoras de endometriose durante o processo de fertilização in vitro dividindo-as em portadoras de endometriose ovariana e portadoras de endometriose profunda associada à endometriose ovariana. Os resultados do estudo demonstraram que o fato de ter endometriose profunda aumentou o risco das portadoras de endometriose terem uma pior resposta ovariana, ou seja, uma menor quantidade de óvulos nos ciclos de fertilização in vitro.

Os interessantes achados deste estudo demonstram que a doença profunda (já considerada mais agressiva por causar mais dores pélvicas) pode também ser um marcador de risco para menor resposta ovariana nas portadoras de endometriose e, consequentemente, resultar em menores chances de gestação.

Como sabemos que atualmente é possível diagnosticar a endometriose profunda através de um exame de ultrassonografia transvaginal, essa informação deverá ser levada em conta pelo ginecologista no momento de indicar o tratamento de fertilização in vitro para o casal.

Estudos como esse ajudam a ampliar os conhecimentos sobre os mecanismos pelos quais a endometriose afeta a fertilidade conjugal, além de servirem como ponto de partida para futuras pesquisas que ajudarão no tratamento da infertilidade das portadoras de endometriose.

* Endometriose pélvica profunda afeta negativamente a reserva ovariana e o número de oócitos recuperados para fertilização in vitro (tradução).