21 set Ginecologia da Infância e da Adolescência

Entrevista com Dra. Paula Zulian Fagundes (CRM 120332)

Ginecologista da Clínica Medicina da Mulher, a Dra. Paula é especializada no tratamento de pacientes de endometriose e no atendimento ao público adolescente e infantil.

1 – Quais os cuidados que o ginecologista que lida com pacientes na infância e na adolescência deve ter?

O atendimento ginecológico nesta faixa etária é principalmente de caráter preventivo, ou seja, uma tentativa de proteger a paciente de doenças futuras. O ginecologista que lida com crianças e adolescentes necessita, em primeiro lugar, entender as dificuldades do primeiro contato com a intimidade, tentando adquirir a confiança da paciente e fazendo com  que a mesma sinta-se segura durante e após a consulta.

Além disso, deve ter um conhecimento das características especiais referentes a esta faixa etária, com suas peculiaridades, para que consiga diferenciar o fisiológico do patológico. 

Também é fundamental atentar para a saúde global da paciente, pois muitas vezes será o médico que irá acompanhá-la também nos aspectos clínicos não ginecológicos. 

2 – Pacientes nessa faixa etária são muito diferentes das mulheres mais maduras?

As principais questões nesta faixa etária, diferente das pacientes adultas, estão relacionadas com as inseguranças quanto ao próprio corpo, seu desenvolvimento e suas características sexuais que estão se iniciando. Desejo de saber o que está acontecendo com seu corpo e porquê, o que é perfeitamente normal.

3 – Como conquistar a confiança dessas pacientes?

É necessário tentar criar um laço de amizade, falando e explicando as coisas em uma linguagem que elas entendam. É importante também deixá-las à vontade e seguras de que o exame, apesar de necessário, será feito com sua permissão e que não causará dor.

4 – É importante que as mães acompanhem as suas filhas na consulta?

Nas primeiras consultas a participação da mãe pode ajudar no vínculo, quebrando o gelo e trazendo a segurança de que é um procedimento normal, pelo qual todas as mulheres passam e que não causa nenhum trauma. Com o passar do tempo, e conforme a paciente esteja mais confiante e confortável com a situação, a participação da mãe se faz menos necessária; de qualquer forma é a paciente que deve decidir se deseja a companhia da mãe durante a consulta.

5 – Quais os aspectos mais importantes abordados durante a consulta com esse público?

O foco principal nesta faixa etária é a prevenção de doenças. Assuntos como sexo, métodos contraceptivos, alterações do corpo – crescimento de pelos e desenvolvimento de mamas -, orientação sobre doenças sexualmente transmissíveis, além de vacinação, alimentação e atividade física são focos que devem ser abordados sempre pelo médico ginecologista que lida com adolescentes.

6 – Quais as doenças mais recorrentes para esta faixa etária?

Em geral a procura pelo médico ginecologista está mais relacionada a aspectos de desenvolvimento do corpo, alterações de humor, secreções vaginais, dor mamária e  para orientação sobre métodos contraceptivos; na maioria das vezes são situações fisiológicas, ou seja, que fazem parte do desenvolvimento normal da mulher. Doenças são menos comuns nesta faixa etária e saber a diferença entre as duas situações é fundamental no atendimento de pacientes nesta fase da vida.

7 – Como tratar assuntos sérios como sexualidade e DST com pacientes dessa idade? É necessário algum preparo especial ou o tom certo do discurso vem com a experiência?

É importante a habilidade de falar com naturalidade sobre tais questões para que a paciente sinta-se confortável ao relatá-las ou questioná-las. O assunto deve ser tratado do mesmo modo que com as pacientes adultas, respeitando suas necessidades, sanando as dúvidas ou curiosidades e deixando-as cientes de que não estão sendo julgadas e que sua intimidade não será exposta.

8 – Qual a importância da mulher consultar o ginecologista desde os primeiros anos de vida?

Por ser uma área de intimidade, a criação de vínculo e o tempo para se ganhar a confiança da paciente são fundamentais para que a consulta seja a mais proveitosa e completa possível. Muitas vezes na primeira consulta a paciente não se sente confortável para o exame físico ou para expor suas reais dúvidas ou curiosidades. É papel fundamental do ginecologista ganhar esta confiança. Também o diagnóstico precoce de alterações ou doenças pode ajudar no acompanhamento e evitar tratamentos mais agressivos.

9 – Os resultados alcançados a partir do contato com as pacientes desde seus primeiros anos de vida são positivos? É possível, assim, fazer um melhor controle da saúde da mulher, fazer diagnósticos precoces, como no caso da endometriose?

Definitivamente o acompanhamento precoce é positivo no intuito de se ganhar a confiança da paciente e na realização de prevenção e diagnósticos precoces. A endometriose, por exemplo, é uma doença progressiva que pode apresentar seus primeiros sinais e sintomas já na adolescência e o diagnóstico precoce é essencial para seu melhor controle, de forma menos agressiva e inclusive para garantir melhores resultados reprodutivos futuros.

10 – Qual o papel do ginecologista no amadurecimento dessas jovens mulheres?

O ginecologista deve obter a confiança da paciente de forma que consiga orientá-la quanto à prevenção de doenças e sobre a forma correta de se evitar uma gestação indesejada, entre outras situações, de maneira que a mesma chegue à fase adulta com a sensação de tranquilidade e sem arrependimentos.

11 – Qual a importância das pacientes manterem uma boa qualidade de vida desde a infância, alimentando-se saudavelmente, praticando exercícios, entre outros hábitos saudáveis?

É fundamental que a promoção da saúde seja feita desde a infância: hábitos saudáveis de vida levarão a uma vida adulta saudável e bem mais produtiva. Chegar à vida adulta de forma desregrada, com alimentação rica em gorduras ou açúcares, sem atividade física regular, pode já ter causado danos irreversíveis à saúde, além de ser muito mais difícil criar hábitos saudáveis nesta fase.