21 set Endometriose, Fertilidade e Reprodução Assistida

Entrevista com Dr. Mauricio Simões Abrão (CRM 52842)

Dr. Mauricio Abrão é professor associado do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP); médico responsável pelo setor de Endometriose da Clínica Ginecológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP; membro do board da Sociedade Mundial de Endometriose e da AAGL – Advancing Minimally Invasive Gynecology Worldwide; e é presidente da Associação Brasileira de Endometriose e Ginecologia Minimamente Invasiva (SBE).

1 – Dr. Maurício, o que é endometriose? Como essa doença se desenvolve no organismo?

É uma doença que ocorre quando o endométrio (tecido que reveste a cavidade uterina) se implanta fora do útero. Pode comprometer os ovários, ligamentos ou órgãos como bexiga e intestino. Compromete mais de 6 milhões de mulheres brasileiras e é uma das principais causas de infertilidade. 

2 – Quais são os sintomas mais comuns da endometriose?

São seis os principais sintomas: cólicas menstruais fortes, dores na relação sexual, dores entre as menstruações, dores para evacuar ou urinar durante a menstruação e dificuldade para engravidar. 

3 – Como diferenciar uma cólica menstrual “normal” de uma cólica causada por endometriose? É possível (para a mulher) perceber a diferença entre esses dois tipos de cólica? 

A intensidade da dor pode ser um critério, mas em geral é uma boa avaliação médica que permite esta diferenciação. Além disso, a associação com outros sintomas também pode ajudar a pensar em endometriose, diferentemente das cólicas normais, que não vêm acompanhadas de outros sintomas. 

4 – Sabemos que a endometriose é uma doença relativamente comum (atinge 15% das mulheres entre 15 e 45 anos de idade no país). Isso corresponde a mais de 6 milhões de brasileiras. Esse número era tão alto assim há 50 anos, quando a vida nas cidades grandes era menos complexa, quando não havia tanta poluição, quando a alimentação não era tão industrializada, quando menos mulheres trabalhavam fora (e dentro) de casa…?

Acredita-se que esse número tenha sido bem menor há 50 anos – apesar de sabermos que naquela época se fazia muito menos diagnóstico – por fatores que envolvem hábitos da mulher moderna.

5 – Afinal, por que a endometriose é considerada uma doença da mulher moderna? 

Dentre as principais teorias que justificam a doença estão a da menstruação retrógrada – durante a menstruação, fragmentos de endométrio refluem pelas tubas uterinas chegando à cavidade abdominal, onde podem se implantar. E a teoria imunológica, pela qual o sistema de defesa (imunológico) da mulher estaria alterado permitindo que aquele endométrio que chegou na cavidade abdominal se implantasse. 

A mulher moderna menstrua hoje, em média, 400 vezes durante a vida. Há 100 anos estima-se que a mulher menstruava por volta de 40 vezes apenas – por engravidar mais cedo e ter, em média, muitos filhos. Além disso, há inúmeros fatores que favorecem uma disfunção imunológica hoje em dia, desde o estresse até fatores ambientais como poluição, alimentação, etc. 

Há alguns estudos apontando para o malefício das gorduras trans, o que ainda precisa ser reavaliado. No caso da poluição, a dioxina (produto da combustão de poluentes ambientais) pode estar relacionada ao desenvolvimento da doença e à sua gravidade.  

6 – Apesar de ser uma doença que atinge muitas mulheres, o diagnóstico da endometriose é complexo. Muitas mulheres passam anos com a doença (apesar de fazerem seus exames periódicos no ginecologista) até que um médico consiga detectar a endometriose. Por que essa demora no diagnóstico?

Há algumas razões para a demora no diagnóstico: a demora para a paciente procurar o médico quando tem sintomas e a demora do próprio médico para pensar na doença e pedir os exames necessários. Fizemos um estudo colaborativo entre a UNICAMP e a USP de São Paulo mostrando que o tempo médio entre o começo dos sintomas e o diagnóstico da doença é de cerca de sete anos. Neste mesmo estudo mostramos que quando os sintomas começam mais cedo – por volta dos 20 anos de idade – o diagnóstico demora ainda mais (por volta de 12 anos). Por isso temos feito campanhas através da Associação Brasileira de Endometriose (SBE), para estimular médicos a fazerem diagnósticos mais precoces e conscientizar as mulheres a procurarem mais rapidamente a assistência médica. 

7 – Quais são as técnicas e/ou os exames que a Clínica Medicina da Mulher disponibiliza às suas pacientes para o diagnóstico de endometriose?

Houve um grande avanço no diagnóstico não invasivo da endometriose com o desenvolvimento de métodos de imagem que nos permitem não só definir melhor quem precisa realizar uma laparoscopia, como também orientar o médico, com muita precisão, sobre os procedimentos que devem ser realizados. Estes estudos foram desenvolvidos no Brasil e publicados em revistas internacionais de grande impacto em ginecologia. A Clínica Medicina da Mulher possui médicos capacitados para fazer o diagnóstico clínico da endometriose e oferece a possibilidade de, no momento da consulta, fazer exames laboratoriais por um laboratório de excelência. Também dispormos dos profissionais que desenvolveram o ultrassom especializado em endometriose, feito com um simples preparo intestinal, e de radiologistas treinados para fazer este diagnóstico, como o Dr. Manoel Orlando Gonçalves e o Dr. Leandro Arcadio. 

8 – Quais são os principais tratamentos indicados para portadoras de endometriose?

O tratamento da endometriose pode ser cirúrgico (laparoscopia), clínico ou combinado. O segredo do tratamento é o seu planejamento e a utilização dos modernos recursos minimamente invasivos de que dispomos atualmente. Além disso, tratar da endometriose requer a consciência de tratar da pessoa e não apenas do órgão comprometido, estimulando atitudes que promovem a diminuição do estresse e a melhora da qualidade de vida da paciente. 

9- Ainda não existe cura definitiva para a endometriose, certo? Então, pensando a longo prazo, o que é  possível oferecer às pacientes para que elas convivam bem com a endometriose e possam minimizar ao máximo os desconfortos da doença?

A endometriose, desde que bem diagnosticada e tratada, pode ser muito bem administrada. A paciente pode ter amplo sucesso na melhora dos principais sintomas relacionados a dor, além de realizar o desejo (bastante comum) de ter seu bebê. 

10 – A endometriose é uma das principais causas de infertilidade nas mulheres em idade reprodutiva. Quanto por cento das mulheres portadoras de endometriose se torna infértil?

Estima-se que aproximadamente 60% das pacientes com endometriose possam ter infertilidade. Mas esse é um número de difícil precisão, pois depende da população estudada.

11 – Por que a endometriose pode causar infertilidade?

Há pelo menos cinco causas: aderências pélvicas, problemas ovulatórios, alteração na motilidade das tubas (motilidade = capacidade de executar movimentos autônomos), alteração na receptividade do endométrio ao embrião fertilizado, e se mesmo assim a paciente engravidar, ela terá maiores chances de abortamento. 

12 – O que é possível fazer para diminuir a chance da endometriose levar à infertilidade?

Com o diagnóstico e tratamento adequados, é possível diminuir essa chance. Também é preciso olhar melhor para as adolescentes que podem ter este importante problema e pensar na prevenção. 

13 – Vamos supor que a endometriose tenha causado infertilidade em uma mulher com grande desejo de engravidar. O que é possível fazer para que ela realize esse sonho? 

Há vários caminhos, desde tratar adequadamente a doença até utilizar técnicas de reprodução assistida.

14 – Quais são as técnicas de reprodução assistida mais indicadas para portadoras de endometriose?

Depende do estadio (extensão) da doença. Para doenças iniciais, indicamos técnicas de baixa complexidade como indução da ovulação ou inseminação intra-uterina, que consiste em uma associação da indução da ovulação com a inseminação de espermatozóides na cavidade uterina. Para as pacientes com doença avançada ou falha nas técnicas de menor complexidade, a fertilização in vitro pode ser indicada. 

15 – Quais são os cuidados específicos indicados às portadoras de endometriose durante o tratamento de reprodução assistida?

Há vários cuidados mais específicos, como controlar a doença durante o tratamento (e isso é possível com o preparo dos profissionais para visualizarem a doença pelo ultrassom), além de cuidados com o sistema imunológico e com o ambiente hormonal das pacientes. Além disso, é fundamental cuidarmos do aspecto emocional da paciente, com médicos e psicoterapeutas atentos a esta questão. 

16 – No mundo científico, qual é a posição do Brasil no estudo da Endometriose?

Sem dúvida podemos dizer que estamos na frente de muitos centros de primeiro mundo que estudam esta doença. A partir do desenvolvimento dos métodos diagnósticos, vários profissionais de todo o mundo têm vindo treinar conosco. Além disso, nosso grupo tem estudado vários aspectos da doença relacionados ao seu diagnóstico, tratamento, aspectos imunológicos, genéticos, células-tronco e outros, conforme podemos observar no site do Pubmed (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed?term=abrao%20ms), que contém mais de 20 milhões de citações da literatura biomédica. 

Além disso, em 2014 organizaremos o Congresso Mundial de Endometriose, o mais importante congresso da área, realizado a cada três anos. A organização é da World Endometriosis Society. A SBE vai apoiar e eu presidirei.

17 – Agora em maio será inaugurado o Laboratório de Reprodução Humana – do qual o senhor é um dos diretores – no hospital Sírio-Libanês (unidade Itaim Bibi). O que este centro trará de inovação em reprodução humana? Qual é seu grande diferencial?

Este é um grande avanço para a medicina brasileira. Contaremos com as mais modernas técnicas de reprodução assistida aliadas a um time de especialistas em reprodução humana de primeira linha, capacitados tecnica e cientificamente para o atendimento das pacientes. Contaremos também com um serviço de psicologia treinado para o atendimento destas pacientes e uma supervisão de competentes serviços internacionais. 

18 – Quem são os outros diretores do Centro de Reprodução Humana? O que o senhor tem a dizer sobre essa equipe?

Contaremos com a parceria do Prof. Dr. Carlos Alberto Petta, professor associado da UNICAMP; do Dr. João Antonio Dias Jr. e Dr. Sérgio Podgaec, doutores em Ginecologia pelo Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da USP; e da Dra Ana Lucia Beltrame, mestre em Ginecologia pelo Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da USP. É um time de primeiro mundo.